Plataforma de telemedicina é parceira do Clube de benefícios SBA

Por dr. Pablo Britto Detoni
Na hora de escolher a plataforma, é fundamental o planejamento. Não realizar consultas improvisadas pelo telefone ou aplicativos que, apesar da facilidade, pode não ter segurança.

 A SBA fechou uma parceria com a CONEXA, empresa especializada em teleconsulta médica no intuito de dar uma opção para o sócio SBA.

As consultas pré-anestésicas podem ser realizadas no modelo “Freemium” da empresa, que é gratuito e atente os 5 princípios básicos para a tele consulta: Confidencialidade, integridade, disponibilidade dos dados, conformidade e a autenticidade.

Descrição da parceria:

O iMedicina é a solução da Conexa com todas as ferramentas digitais que o médico precisa para garantir ao seu paciente a melhor experiência. Com o iMedicina, o sócio SBA terá acesso a agenda, prontuário e prescrição eletrônicos, telemedicina, agendamento on-line, gestão financeira, entre outras funcionalidades gratuitamente.


O que os olhos não veem…

Por dra. Aline Yuri Chibana

O ato anestésico-cirúrgico foi um “sucesso”, você extuba o seu paciente e o encaminha à sala de recuperação anestésica (SRA). Posteriormente, um colega seu dará a alta para o leito enquanto você já está realizando outra anestesia. O dia se passa, a semana, o mês. Foram dias bons sem nenhuma intercorrência, você pondera.

Mas será mesmo?  O quanto sabemos dos nossos pacientes a partir do momento que os tiramos da sala de cirurgia? O que acontece com eles na SRA, enfermaria, em casa?

Sessler avaliou em sua publicação que a mortalidade intraoperatória por causa anestésica decaiu tanto nas últimas décadas que a pós-operatória em 30 dias chega a ser 1.000 vezes maior (1).

Análises do ASA Closed Claims mostram que 5 a 7% dos processos judiciais estavam relacionados à SRA e que quase 70% resultaram de complicações respiratórias e vias aéreas. Erros ou atrasos diagnósticos foram citados em mais da metade dos casos (2).  Sabemos ainda que à medida que o paciente se afasta de nossos cuidados, da sala de cirurgia, para a SRA e depois a enfermaria, a mortalidade aumenta em decorrência de uma complicação; 44,8%, 51% e 64,7%, respectivamente (3).

Some a isso o fato de que um paciente que apresente algum incidente na SRA como hipotensão, dessaturação ou sedação terá mais chances de necessitar do acionamento do time de resposta rápida na enfermaria (OR  3.08, 2.21 e 10.67, respectivamente)(4).

Mas é claro, o acionamento ocorrerá se a enfermagem o detectar a tempo. Outro estudo de Sessler, que avaliou 833 pacientes pós-cirúrgicos, encontrou que episódios hipoxêmicos são muito comuns e persistentes e que 90% deles não são identificados pela enfermagem (5). De fato, mais da metade de todos os eventos cardiorrespiratórios ocorrem na enfermaria, com mortalidade superior a 40% (6).

Identificar pacientes de risco é fundamental para garantir uma recuperação segura. Estudos recentes mostram que pacientes masculinos, acima de 60 anos, virgens de opioide, com desordens do sono e/ou insuficiência cardíaca possuem riscos elevados de depressão respiratória induzida por opioides, por exemplo. A simples oferta de O2 suplementar diminuiu a incidência de 46% para 8%! (6).

Estamos habituados a realizarmos um planejamento meticuloso para o manejo intraoperatório. Por que não estender este planejamento para além do centro cirúrgico?.

Se o que os olhos não veem, o coração não sente; o cérebro sabedor de todos estes dados poderá nos guiar para elevar a segurança anestésica no perioperatório.

Referências

  1. Sessler DI, Khanna AK. Perioperative myocardial injury and the contribution of hypotension. Intensive Care Med. 2018;44(6):811-22.
  2. Kellner DB, Urman RD, Greenberg P, Brovman EY. Analysis of adverse outcomes in the post-anesthesia care unit based on anesthesia liability data. J Clin Anesth. 2018 Nov;50:48-56. doi: 10.1016/j.jclinane.2018.06.038. Epub 2018 Jun 29. PMID: 29979999.
  3. Bocanegra-Rivera JC, Arias-Botero JH. Caracterización y análisis de eventos adversos en procesos cerrados de anestesiólogos apoderados por la Sociedad Colombiana de Anestesiología y Reanimación (S.C.A.R.E.) en Colombia entre 1993–2012. Rev Colomb Anestesiol. 2016;44:201–208
  4. Petersen Tym MK, Ludbrook GL, Flabouris A, Seglenieks R, Painter TW. Developing models to predict early postoperative patient deterioration and adverse events. ANZ J Surg. 2017 Jun;87(6):457-461. doi: 10.1111/ans.13874. Epub 2017 Feb 1. PMID: 28147435.
  5. Sun Z, Sessler DI, Dalton JE, Devereaux PJ, Shahinyan A, Naylor AJ, Hutcherson MT, Finnegan PS, Tandon V, Darvish-Kazem S, Chugh S, Alzayer H, Kurz A. Postoperative Hypoxemia Is Common and Persistent: A Prospective Blinded Observational Study. Anesth Analg. 2015 Sep;121(3):709-15. doi: 10.1213/ANE.0000000000000836. PMID: 26287299; PMCID: PMC4825673.
  6. Khanna, Ashish K et al. “Prediction of Opioid-Induced Respiratory Depression on Inpatient Wards Using Continuous Capnography and Oximetry: An International Prospective, Observational Trial.” Anesthesia and analgesia 131,4 (2020): 1012-1024. doi:10.1213/ANE.0000000000004788

Os impactos do excesso laboral do anestesiologista na qualidade e segurança

Por dr. Luis Antonio dos Santos Diego

A segunda onda da Covid-19 vem sobrecarregando o sistema de saúde e, por conseguinte, comprometendo a saúde do profissional que estão cotidianamente expostos ao SARS-CoV2 em situações de intenso estresse. Esse excesso laboral, fator relevante para o esgotamento profissional, vem levantando preocupações sobre sua participação na qualidade e segurança do paciente.

Essa relação não é recente, Dyrbye et al. há dez anos reconhecia que o physician burnout era uma ameaça potencial ao atendimento de qualidade1. Burnout pode ser definido como uma síndrome psicológica determinada por exposição prolongada a estressores interpessoais crônicos no ambiente de trabalho. Seus principais sintomas são: exaustão avassaladora, desmotivação no trabalho com sensação de ineficácia e de falta de realizações. Muitos aspectos do atendimento ao paciente podem ser comprometidos por profissionais acometidos por burnout, principalmente a empatia e redução na satisfação do paciente com o atendimento.

Os grandes avanços na medicina, especialmente na prática da anestesiologia, ampliaram o escopo funcional do especialista, aumentando assim suas responsabilidades e obrigações profissionais. O anestesiologista está exposto a uma ampla variedade de perigos potenciais que podem ser prejudiciais à sua saúde em geral. Essa exposição inclui situações desafiadoras e inevitáveis tendo que, o profissional, resolvê-las individualmente.

A Covid-19 é um exemplo atual e manifesto do potencial risco biológico ao qual também os anestesiologistas estão expostos cotidianamente em sua prática laborativa, mas também um potencial risco próprio da natureza da atividade laboral. A exaustão emocional, em seu nível mais alto, pode levar à despersonalização

O esgotamento pode afetar a qualidade e a segurança da saúde de várias maneiras. Na verdade, a escassez de recursos humanos pode fazer com que os profissionais dispendam menos tempo com os pacientes e, potencialmente, sejam mais diretivos do que colaborativos e centrados no paciente. Além disso, a síndrome de  burnout tem sido associada a deficiências cognitivas, incluindo déficit de atenção2.

Salyers et al3. realizaram uma metanálise com o objetivo de analisar a associação entre profissionais com síndrome de burnout e a qualidade e segurança. Apesar de não encontrarem uma relação robusta que firmasse categoricamente uma associação entre a síndrome de burnout e a diminuição da qualidade e segurança do paciente (variação entre 5 e 7%).  Embora o tamanho do efeito não seja exuberante, esse estudo representa uma parcela de estudos nos quais resultados estatísticos medianamente aceitáveis contribuem sobremaneira para uma visão do mundo real.

O anestesiologista deve, portanto, saber sopesar o seu comprometimento com o seu trabalho e as obrigações pessoais, inclusive de lazer e vida interior.

Referências bibliográficas:

  1. Dyrbye LN, Shanafelt TD. Physician burnout: a potential threat to successful health care reform. JAMA. 2011 May 18;305(19):2009-10. doi: 10.1001/jama.2011.652. PMID: 21586718
  2. van der Linden D, Keijsers GPJ, Eling P, van Schaijk R. Work stress and attentional difficulties: an initial study on burnout and cognitive failures. Work and Stress. 2005;19:23–36. doi:10.1080/02678370500065275.
  3. Salyers MP, Bonfils KA, Luther L, Firmin RL, White DA, Adams EL, Rollins AL. A Relação Entre Burnout Profissional e Qualidade e Segurança em Saúde: Uma Meta-Análise. J Gen Intern Med. 2017 Abr;32(4):475-482. doi: 10.1007/s11606-016-3886-9. Epub 2016 Out 26. 27785668; PMCID: PMC5377877.

Mês de abril e a Segurança do Paciente

Por dra. Michelle Nacur Lorentz

Dia 1º de abril é celebrado como o Dia Nacional da Segurança do Paciente e dia 7 de abril o Dia Internacional da Saúde.

O conceito de segurança nos cuidados com a saúde sofreu grande impacto em novembro de 1999 com os dados coletados no trabalho “O Erro é Humano”. Tal publicação trouxe à tona uma realidade catastrófica: 4% dos pacientes hospitalizados sofrem algum tipo de evento adverso, sendo o fator humano responsável pela maioria desses eventos! Isso gera em torno de 44mil a 98 mil mortes ao ano nos EUA, matando mais que acidentes de trânsito, câncer de mama ou Aids.

A partir de então, esforços foram enviados, de entidades governamentais e não governamentais, para aumentar a segurança nos sistemas de saúde e passou-se a desenvolver sistemas complexos para mitigar os erros e reduzir a mortalidade.

O Instituto Mundial de Saúde preconizou que os serviços de saúde devem ser seguros, pontuais, efetivos, eficientes, ter equidade e manter o foco no paciente, criando o acrônimo STEEEP.

A World  Alliance for Patient Safety lançou o lema “Primeiro não fazer o mal” e a segurança passou a ser preocupação constante nos cuidados com a saúde.

O elemento segurança tornou-se particularmente importante na anestesia, atividade intrinsecamente perigosa sem ser intrinsecamente terapêutica. Tanto é que a APFS tomou como lema que “nenhum paciente deve sofrer dano devido a anestesia”.

A OMS lançou, entre 2007 e 2008, seu segundo desafio global: “Cirurgias Seguras Salvam Vidas”. Neste sentido, recomendaram a utilização de checklist antes de cada procedimento anestésico-cirúrgico. Em 2009, um trabalho publicado no NEJM demonstrou que, após implementação do checklist antes das cirurgias, as complicações reduziram de 11% para 7% e a mortalidade de 1,5% para 0,7%. Apesar de tal recomendação, muitos serviços ainda não implementaram o checklist rotineiramente e trabalhos posteriores demonstraram que em 10 a 15% dos casos há esquecimento de checar pelo menos 1 item do checklist e que a falha ao checar é responsável por 22 a 33% dos incidentes críticos em anestesia.

Em 2017,  H. Higsham e B Baxendall publicaram artigo no BJA demonstrando que os cuidados com a saúde são atividades de alto risco, com maior mortalidade que escalar montanhas ou pular de Bungee Jumping.

Portanto, esforços contínuos devem ser envidados visando aumentar a segurança do paciente, a redução ou mitigação de atos não seguros nos sistemas de assistência à saúde, além da utilização de melhores práticas para conduzirem aos melhores resultados. 

No âmbito individual recomenda-se atualização científica, compromisso, atenção, treinamento em simulação e boa comunicação com o cirurgião. Na esfera da equipe, recomenda-se trabalhar as competências técnicas e habilidades não técnicas, autonomia, baixa dependência do gestor e mecanismos de autocorreção. Na coordenação, recomenda-se defender os interesses da equipe, comunicação adequada, resolução dos conflitos de forma clara e transparente, valorização do indivíduo e fornecimento do feedback, de forma a tornar o coordenador um líder e não apenas um chefe. Da mesma forma as reuniões periódicas, treinamento contínuo e debriefing tornariam a equipe mais eficiente aproximando-a das equipes de alta performance. Com tudo isto, conseguiríamos transformar a cultura da culpa em uma cultura de segurança. 

Referências:

  1. N Engl J Med 2009; 360: 470-479.
  2. Anesth Analg 2015, vol 121, 4: 1097-1102.
  3. Brit J Anaesth 2017; 119 (S1): il06-il14.

Núcleo de Gestão de Trabalho do Anestesiologista

A Sociedade Brasileira de Anestesiologia (SBA) não possui prerrogativas legais para negociações trabalhistas e honorários, próprias dos sindicatos e outros organismos, entretanto, considerando a missão de Formar – Educar – Certificar – Representar, compromete-se a acompanhar, discutir e orientar seus associados sobre os rumos da valoração da prática laboral do anestesista.

>Saiba mais sobre o NGTA no SBA Podcast

Com base nisso, surgiu o Núcleo de Gestão do Trabalho do Anestesiologista (NGTA), lançado no final de janeiro, durante um webinar da Defesa Profissional. O projeto tem o propósito de promover ações transformadoras da lida do anestesiologista por meio da educação e formação nas concepções atuais de gestão em saúde.

Como objetivo primário, o NGTA irá promover, no âmbito da SBA, a ampla discussão de temas relacionados à valoração do trabalho do anestesiologista, especialmente aqueles relacionados à qualidade e discriminação dos aspectos que sejam considerados, ou possam vir a ser, incrementos na participação valorativa da sua atuação.

O NGTA é coordenado pelo dr. Luis Antonio Diego, diretor de Defesa Profissional da SBA, e conta com a participação do dr. Augusto Takaschima, diretor presidente da SBA, e do dr. Luiz Fernando Falcão, diretor de Relações Internacionais, além dos membros efetivos:

  • Dr. André Luis Ottoboni (Saesp)
  • Dr. Mauro P. de Azevedo (Saerj)
  • Dr. Pablo Detoni (Saeb)
  • Dr. Guinther G. Badessa (Saesp)
  • Dr. Wagner de Sá (Febracan)
  • Dr. Carlos Galhardo (Saerj)

Sobre a quebra de Paradigmas

Por Michelle Nacur Lorentz

Prezados colegas,

Tenho pensado muito sobre as normas, condutas e comportamentos que formam e sempre formaram o padrão do anestesiologista.

E vejo com alegria que, da mesma forma que esses padrões preestabelecidos moldaram nosso comportamento profissional por muitos anos, acontecimentos recentes nos auxiliaram no sentido de nos desenvolver na ciência, nas habilidades não técnicas e no crescimento pessoal.

Rompemos barreiras. Hoje atuamos em todos os setores dos hospitais, somos altamente preparados para o atendimento da PCR, aceitamos inovações e incorporamos mudanças.

Atuando em todas as frentes, fomos o vetor fundamental para o atendimento de pacientes da Covid-19. Nós salvamos vidas e mudamos prognósticos.

Não somos meros “intubadores”. Somos fundamentais, atuamos com maestria na tênue linha que separa a vida da morte. Parece que estamos começando a ser reconhecidos pelos nossos pares, mas, mais importante que isso, pelos nossos pacientes.

Penso que há algo de transcendente em nossa atividade profissional. E isso é algo maravilhoso!

Saímos da nossa zona de conforto e quebramos paradigmas. Estamos nos superando, nos tornando profissionais mais completos e caminhando para nos tornar a melhor versão de nós mesmos.

Orgulho de ser anestesiologista!


Vacinação e anestesiologistas 

Por Daniel Veloso Viana Bomfim e Michelle Nacur Lorentz

Iniciamos o primeiro mês do ano e as notícias não foram animadoras. A pandemia do novo coronavírus continuou a se alastrar e ceifando vidas, com intensidade maior no estado do Amazonas, onde ocorre grave crise sanitária, pior do que no inicio de 2020. No dia 17 de janeiro de 2021, ressurgiu a esperança por dias melhores, quando o primeiro brasileiro foi vacinado no estado de São Paulo.

Ao longo da pandemia foi iniciada uma corrida pela vacina, capitaneada por alguns laboratórios e importantes universidades de todo o mundo, devido a urgente demanda de uma vacina com eficácia comprovada. A participação brasileira ocorreu por meio de parcerias entre as instituições Fiocruz e Butantan, com os laboratórios AstraZeneca e Sinovac.

A Sociedade Brasileira de Anestesiologia, durante todo o período da pandemia, manteve-se atuante através da criação de chat para responder dúvidas sobre a Covid-19, publicações e elaboração de vídeos e protocolos de manejo das vias aéreas, uso de EPIs e manejo perioperatório. Os anestesiologistas em todo o país foram contemplados com atualização e conteúdo científico online, além de orientação via chat diariamente.

O compromisso dos anestesiologistas com a vida suplantou o medo do risco de contaminação pela alta geração de aerossóis durante o manejo das vias aéreas. Embora muitos dos nossos tenham perdido a vida, os colegas mantiveram-se firmes na linha de frente e a anestesiologia passou a atuar em todos os setores do hospital, desde o PA até os centros de terapia intensiva,  atuando de forma heroica, salvaram inúmeras vidas.

O estado do Amazonas, enfrentando uma situação caótica contou com a participação ativa da SBA, bem como de anestesiologistas de todo o país, que em parceria com a Associação de Anestesiologia do Estado do Amazonas realizaram uma campanha por doações para compra de EPIs e orientações na atuação dos anestesiologistas. Mais uma vez comprovamos a união da nossa especialidade e o verdadeiro conceito de time.

Diante do recrutamento emergencial dos médicos em todo Brasil para o atendimento de pacientes portadores da Covid-19 sob risco de insuficiência respiratória aguda, os anestesiologistas se mostraram os profissionais mais indicados nas unidades Covid e na composição de times de resposta rápida para IOT. Em nenhum momento nos furtamos do protagonismo desse papel e do risco que ele representava, ao contrário, aceitamos o desafio. Anestesiologistas em todo o país se colocaram no front dessa pandemia que configura verdadeiro cenário de guerra.

Agora com a aquisição das vacinas soube-se que os médicos anestesiologistas não foram contemplados na primeira fase da vacinação em nosso país.

Como entendemos ser o anestesiologista parte do grupo prioritário,  não apenas pelo altíssimo risco de contaminação pela elevada exposição aos aerossóis, mas também por ser força de trabalho fundamental nesse cenário de guerra, onde as baixas desses profissionais médicos impactarão em perda de inúmeras outras vidas, temos questionado aos secretários estaduais e municipais das capitais de todo o país, quais critérios utilizados na priorização das vacinas.

A SBA representada pelo Dr. Luis Antonio Diego, diretor de Defesa Profissional, elaborou  documento explicando às autoridades o papel primordial dos anestesiologistas nessa pandemia, solicitando que todos os anestesiologistas fossem contemplados nessa fase inicial.

Sabemos que os brasileiros aguardam a vacinação e anseiam por celeridade no processo e que esta seja distribuída a todos, mas é necessário avaliar as  prioridades, pois só assim poderemos fazer o enfrentamento da Pandemia  até que toda população possa estar imunizada e a vida possa retornar a normalidade.

Janeiro 2021


O ano de 2020 ficará na memória da anestesiologia

Por Luis Antonio dos Santos Diego, diretor do Departamento de Defesa Profissional da SBA

Estamos num momento ímpar da Sociedade Brasileira de Anestesiologia, um ano atípico, mas de muito trabalho e muita reflexão sobre o que fazemos e como fazemos. O mundo virtual que se descortinou diante de nós abriu muitas possibilidades, tantas, aliás, que precisaremos focar no que é absolutamente fundamental para a razão da existência da SBA: nossos associados.

Foi assim o ano todo e será nos que estão porvir. O Departamento de Defesa Profissional também se engajou em diversos projetos e todas as Comissões permanentes trabalharam muito, mas especialmente a Comissão de Saúde Ocupacional.

Dentre as inúmeras realizações, encontra-se a participação na atualização da Carta de Recife, juntamente com as Regionais signatárias que se fizeram representar no Siso em setembro deste ano. Antes mesmo, já vínhamos, todos juntos e colaborativamente, apresentando as possíveis melhorias que poderiam fazer parte dessa atualização. O retorno só não foi maior do que o prazer de todos nós em realizar essa tarefa. Juntos fizemos os naturais ajustes que qualquer documento dessa magnitude necessita, principalmente quando 2 anos parecem 20 anos diante de tantas modificações.

Estamos publicando na próxima Anestesia em Revista, ainda nesse mês de dezembro de 2020, essa atualização. A grande novidade é a possibilidade de todos os signatários virem a compartilhar projetos com todos os outros signatários. Esses projetos ficarão na aba permanente da Carta de Recife no Portal SBA e assim todos poderão se beneficiar das iniciativas exitosas que cada signatário promoveu.

A Carta de Recife já é mais que uma brilhante iniciativa que há dois anos nasceu durante o Siso na belíssima cidade do Recife sob os auspícios da Saepe e uma confraternização linda, na qual não tive o prazer de participar. Hoje a Carta de Recife é um conceito pelo qual lutaremos. A SBA cumprirá seu papel e todos os signatários, temos certeza, estarão ombro-a-ombro


Eventos adversos e o médico em especialização

Por André Luis Ottoboni e Claudia Marquez Simões

O ambiente de ensino difere do ambiente puramente assistencial em diversos aspectos, podendo ter implicações também relacionadas à segurança do paciente. Neste processo, alguns elementos podem ser extremamente favoráveis, como: o acesso a novas tecnologias e conceitos de ponta pelo ambiente didático, além de um ambiente com proteção redundante conferida pelo professional em formação e seu preceptor que está realizando a supervisão direta.

Por outro lado, um fator que pode prejudicar a atuação segura e tornar o cuidado frágil é o fato de que muitas vezes as diversas instituições de ensino possuem grande número de pacientes para cada professional de saúde. Neste contexto, pode-se destacar o recente crescimento de instituições privadas que tem o ensino associado, agregando o melhor dos dois cenários, como as tecnologias de ponta, atualização e cuidado redundante associado a uma proporção adequada de profissionais de saúde para uma menor proporção de pacientes.

Os médicos em formação têm um grande contato com pacientes e seus familiares e/ou cuidadores, além de um intenso contato com as diversas equipes assistenciais que interagem com o paciente, deixando-o em uma situação privilegiada de acesso à informação e com uma visão única do cuidado global do paciente.

Já foi demonstrado que os médicos em especialização, principalmente da área cirúrgica, incluindo a anestesia, são os que mais relatam eventos adversos1. Muitas são as possíveis justificativas para este achado, que variam desde a possibilidade de identificação precoce dos eventos anestésico-cirúrgicos até mesmo a cultura de discussão e relatos de complicações nesta área. O número de eventos adversos relatados foram maiores conforme o número de horas trabalhadas por semana aumentava, na maior parte acima de 80 horas semanais, reforçando a importante relação entre segurança e descanso dos profissionais de saúde2.

Um ambiente exigente, com alta demanda assistencial associado ao medo de críticas de colegas de equipe, cirurgiões e enfermagem, pode fazer com que um médico em especialização (ME) em anestesiologia hesite em comunicar dúvidas ou problemas aos seus preceptores. Conhecer conceitos sobre segurança do paciente e entender como se conduz um evento adverso, buscando a melhoria contínua, são pontos essenciais para tentar reduzir o efeito da pressão e estresse do ambiente cirúrgico e envolvê-los na cultura de segurança3.

Com este objetivo, há alguns anos, introduzimos atividades relacionadas ao serviço de segurança e qualidade integradas aos estágios dos médicos em especialização. Ao participar de discussões de casos, análise de eventos e auxiliarem a construção de planos de ação os médicos em especialização tornam-se importantes defensores da cultura de segurança e podem auxiliar a melhoria contínua da assistência.  Hoje no Brasil começamos a ter a visão dos principais eventos adversos associados a anestesia através dos relatos do diário de bordo (logbook) dos MEs4.

Devemos ter em mente que provavelmente pode haver subnotificações dos eventos neste cenário por eventuais receios de retaliações ou até mesmo do desconhecimento de como tais casos podem vir a ser conduzidos nos mais diferentes centros formadores.  O melhor cuidado dos profissionais em formação pode auxiliar a melhorar a retenção de conhecimentos, reduzir o esgotamento, diminuir os eventos adversos e ainda melhorar o atendimento ao paciente. Isto posto, fica claro que são necessárias mudanças estruturais e sistêmicas nos modelos de formação e até mesmo de assistência5.

Tais mudanças podem exigir uma reformulação completa do que significa ser um médico em treinamento hoje e também do processo de ensino aprendizagem, podendo auxiliar a formação de melhores profissionais e ainda melhorar a qualidade da assistência reduzindo eventos adversos.

Referências bibliográficas:

  1. Jagsi R, Kitch BT, Weinstein DF, Campbell EG, Hutter M, Weissman JS: Residents Report on Adverse Events and Their Causes. Arch Intern Med 2005; 165:2607–13
  2. Laine C, Goldman L, Soukup JR, Hayes JG: The Impact of a Regulation Restricting Medical House Staff Working Hours on the Quality of Patient Care. JAMA 1993; 269:374–8
  3. Pursell A: Residency, Provider Performance and Patient Outcome. ASA Monit 2019; 83:48–48
  4. Pavão ALB, Mattos S, Silva E, Laguardia J, Doellinger V, Curi E, Casali T, Takaschima A, Almeida A, Albuquerque M, Nunes R: Adverse events in anesthesiology: analysis based on the Logbook tool used by specializing physicians in Brazil. Rev Bras Anestesiol 2019; 69:461–8
  5. Wolpaw JT: It Is Time to Prioritize Education and Well-Being Over Workforce Needs in Residency Training. Acad Med 2019; 94


Você já ouviu falar em Segurança II?

Dr. Luis Antonio Diego, diretor de Defesa Profissional da SBA

Quase no despontar do novo milênio, dentre todas as dimensões da Qualidade do Cuidado na Saúde, a Segurança do Paciente destacou-se como aquela que merecia a maior parte da atenção. Em 1999, a publicação “Errar é Humano”, do Instituto de Medicina estadunidense foi a principal responsável por essa onda que só vem crescendo no setor saúde.

Concentrando-se na detecção, na compreensão e na prevenção dos eventos adversos evitáveis, foi-se construindo uma estrutura, já robusto, para minimizar os danos que ocorrem em consequência desses eventos adversos. Este arcabouço, deflagrado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) com o acordo multinacional de uma Aliança para a Segurança do Paciente, permitiu o desenvolvimento de programas de prevenção das principais causas desses eventos adversos como, por exemplo: a infeção hospitalar, a segurança cirúrgica e o uso seguro de medicamentos, ou seja, esforços concentrados nas causas estudadas e, portanto, já com uma probabilidade razoável de ocorrerem.

Esses programas procuraram expor as origens desses eventos aos gestores e aos profissionais mais diretamente inseridos na assistência, e, em sequência, medidas que pudessem vir a impedir suas ocorrências. Assim, as tecnologias e as ferramentas existentes na segurança de outras organizações de alta complexidade, como a aviação comercial e geração de energia nuclear, por exemplo, foram “ajustadas” para atender às demandas do setor saúde. Essas mudanças promoveram transformações não só na prática assistencial, mas também, e certamente ainda mais importante, no maior entendimento da Cultura da Segurança.  

Corridas duas décadas desse frutífero esforço global, começou-se a questionar se não haveria um outro modo de se impulsionar ainda mais a Segurança do Paciente. Uma das propostas parece vir, novamente, de fontes externas ao setor, mais especificamente da Engenharia da Resiliência.

Resiliência, no campo da engenharia, é definida como a capacidade de uma organização funcionar − conforme o necessário − sob condições esperadas e inesperadas. Os princípios da Engenharia da Resiliência foram, inicialmente, explorados na saúde em 2001 por Erik Hollnagel, o qual entendeu não bastar a “imposição” de ações preventivas para impedir a ocorrência dos eventos adversos.

Em determinado momento, ele observou, inclusive, uma crescente insatisfação com as abordagens estabelecidas para as análises de segurança e gestão da segurança. A engenharia de resiliência, portanto, poderia vir a oferecer uma nova interpretação da gestão da segurança. O resultado foi que, mais recentemente, a aplicação específica dos princípios da engenharia de resiliência aos cuidados de saúde tornou-se um campo de atividade por si só denominado Resilient Health Care.

Então, a partir deste momento, o conceito de Safety II (Segurança II) se firma com a proposição de uma maior investigação das práticas cotidianas que, embora variáveis e oscilantes entre os limites da superação de expectativas e da prática inaceitavelmente insegura, permite que a maioria do que se é realizado dê certo. O foco da Segurança II deve ser no que acontece regularmente e não no que raramente ocorre (eventos adversos evitáveis, principalmente com dano), objeto da Segurança I. Como na Engenharia da Resiliência, a proposta é que, além da monitoração e controle do que dá errado (Segurança I), também se possa continuar olhando o que dá certo (Segurança II), principalmente em situações novas e inesperadas que intercorrem a inovação sociotecnológica.

A pergunta que muitos anestesiologistas farão: como isso é na nossa prática? As listas de verificação, instrumentos de handoff e aprimoramento na administração segura de medicamentos vão continuar e podem melhorar, mas vamos ter que passar a ter um olhar mais atento nas práticas com resultado positivo, principalmente nos procedimentos de maior risco, ser proativo e não apenas reativo, perceber como a flexibilização da conduta resolveu um problema novo e, quando o evento adverso ocorrer, não só investigar com o objetivo de identificar a causa raiz − as falhas no processo − para impor mais barreiras, mas também ter um olhar mais longitudinal em todo o processo na tentativa de entender como o “certo” ocasionalmente “dá errado”.