Anestesiologia e o impacto na sustentabilidade

A nona edição do Simpósio de Saúde Ocupacional (SISO), realizada em 21 de agosto de 2021, trouxe uma abordagem particular do tema sustentabilidade. Ele foi discutido sob o viés da saúde e da anestesia com as palestras do dr. Cláudio Carraro e dr. Vinícius Caldeira Quintão.

Dr. Carraro abordou os aspectos da revolução industrial desde o século XVIII até os tempos atuais, mostrando como a evolução humana impacta o ambiente. “No início as pessoas estavam no centro do processo e em todas elas havia a preocupação com o social”, disse.

De todas as fases de produção pelas quais o mundo passou, dr. Carraro destacou o pós-guerra com a criação do modelo Toyota de produção, ou toyotismo, entre 1947 e 1975, que é baseado na eliminação de desperdício. “Ela mudou o conceito de manufatura e, desde a criação, melhoraram o padrão de qualidade e hoje são líderes de mercado”.

A forma de trabalho da empresa surgiu antes mesmo da criação do conceito de Sustentabilidade, que começou a ser delineado na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada na Suécia, na cidade de Estocolmo, de 5 a 16 de junho de 1972. Segundo o conceito “O desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que supre as necessidades da geração presente sem afetar a possibilidade das gerações futuras de suprir a sua”.

O dr. Cláudio Carraro ressaltou que a sustentabilidade é um tema que, ainda que dependente da conscientização individual, está intrinsecamente ligado à governança das organizações para que seja efetiva em toda a cadeia de valor.

Dando sequência ao tema, dr. Vinícius Caldeira Quintão apresentou o impacto da anestesiologia no meio ambiente. O especialista iniciou a palestra com um paralelo entre a mudança climática e a Covid-19. Segundo ele, a Covid representa uma onda muito pequena em relação a mudança climática.

“A Organização das Nações Unidas publicou um relatório mostrando o que o aumento de 1° grau, que já aconteceu na nossa temperatura, causará de impacto na vida. O planeta está criando uma forma de nos expulsar daqui, porque as nossas ações no clima e na sustentabilidade estão deixando o planeta é inabitável”, relatou dr. Quintão.

A anestesiologia, por sua vez, tem um papel importante para a sustentabilidade. Pensando na pegada ecológica e de carbono, uma reflexão apresentada pelo anestesiologista mostra que: “Nós anestesistas temos uma liberdade considerável de planejar o cuidado anestésico do paciente no pré-operatório, então, por isso, a gente consegue fazer uma escolha que irá impactar de forma menor o ambiente sem afetar a qualidade do cuidado do paciente”.

Para discutir o tema de forma mais aprofundada, dr. Vinicius abordou alguns pontos importantes do impacto da anestesia e sustentabilidade.  “Na produção de gases do efeito estufa, quando comparado ao propofol, o desflurano tem um impacto absurdo, sendo maior do que o óxido nitroso que é considerado um gás importante quando a gente pensa em efeito estufa e destruição da camada de ozônio”. Dr. Vinicius salientou que também é importante adicionar na equação as formas de produção e distribuição.

Outro dado alarmante apresentado, é que o óxido nitroso permanece na atmosfera por 114 anos e o desflurano por 14 anos. Dr. Vinicius destaca que todo resíduo de medicamento chegará ao meio ambiente de alguma forma, mas algumas ações podem ser feitas para minimizar o impacto, como utilizar seringas já preenchidas para medicação de emergência. “Essa é uma prática que a gente não tem no Brasil. Eu sou anestesista e trabalho mais com anestesia pediátrica, o desperdício é absurdo porque a gente abre no frasco que usa uma dose muito pequena e a gente tem que descartar o resto”.